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Espaço Vivo

Aqui é uma hospedagem coletiva, onde você pode conhecer fluxos, trilhas e colaborações de outros autores e artistas. Entre e passeie por novas formas, textos e histórias. Antes de chegar nesse nome, "Espaço Vivo", passeei por outros. Caminhei por Criadoria, Imaginâncias e Espaço do Poetizar. E deixei que o movimento e a abertura para o que é Vivo. Entre e fique à vontade. Respire, relaxe e aproveite.


Sem que eu perceba, lá vem o tempo, garoto agitado, tirando dos bolsos lembranças coloridas, fazendo arco-íris em minha mente. Mergulham na minha pele, escorrem pelos dedos. Uma vai enlaçando a outra até formar um elo do mais fino trato. No pátio da memória, brincam de fazer lembrar, um começo que não tem fim.


É assim que tempos passados vem costurar os meus dias, e eu revisito coisas doces de minha vida, entre elas, a Dorinda.


Sempre que me lembro dela, sinto como se algo pontudo fosse entrando no peito, fazendo quase uma dor. Imagino-a tão real que nem parece ter ido para a outra margem há tantos anos. Conheci-a ainda criança e frequentei sua casa até a adolescência. Vivia na solidão de viúva, sozinha e guerreira, temida e mal-amada.


Há pouco, acabei de jantar e senti na boca o gosto da comida de Dorinda. Era de marmita, sobra de almoço, mas que adquiria um gosto especial. Depois da missa de domingo, à noite, eu passava em sua casa, mais por hábito do que saudade. Era certa aquela jantinha guardada para mim no fogão de lenha. Havia sempre um tomatinho maduro, colhido na horta, esmagado, colorindo o arroz.


O que me incomoda nessas lembranças é saber que só depois de tantas perdas, dei-me conta das preciosidades que ficaram sem a devida atenção. Desejaria trazê-la de volta para contar as histórias que queria saber quando perguntava: – Tem alguma notícia nova da rua? Depois de contar a novidade, eu estenderia a mão para presenteá-la com um doce gostoso, e veria seus olhos se iluminarem e seu rosto se abrir num sorriso de contentamento.


De onde estou, neste espaço de lembranças tão distanciadas no tempo, penso nos sons que ela fazia: o arrastar das chinelas, pois era assim, no feminino, que se referia aos chinelos gastos de lã grossa; ao trancar a portinha do fogão à lenha; ao cerrar as janelas da casa e colocar o “rosário” na cabeceira da cama.


Foi-se a Dorinda, mas sua lembrança permanece em mim.


O Coxo

Catulo da Paixão Cearense

 

Certa vez

Um homem descortês

Que vendo um coxo

Passar amuletado

Chamou-lhe: sacripante,

Estúpido, ignorante, malcriado!

E o coxo, sem dar mostras de zangado

Seguia o seu caminho, paciente

Que quase nem parecia o insultado!

E seguia, e seguia, e apenas traduzia

A sua quase compaixão em um muxoxo.

Quando o homem descortês, contrariado, por ver que o insultava sempre em vão

Começou a chamá-lo: “Ó coxo, ó coxo!”

Pois o coxo, que não se molestara

Com os insultos que o homem lhe atirava,

Ficou como uma fera,

A ponto de agredi-lo com a muleta

Batendo-lhe na cara.

Somente porque o homem lhe chamara

De coxo, exatamente aquilo que ele era.

 

Nesses tempos de política rasteira e acompanhando alguns debates no YouTube, onde os candidatos xingam publicamente uns aos outros e a carapuça despenca, não tem como não se lembrar deste poema de Catulo da Paixão Cearense, que retrata a história de um deficiente que foi xingado de tudo que é nome, porém ao ser chamado de coxo, que é justamente que ele era, virou uma fera.




Mais de um par de décadas sem visitar o ponto turístico. Antes, muitas câmeras fotográficas tentavam capturar instantes. Hoje, celulares de todos os modelos e marcas disputam espaço nas mãos de turistas ávidos.


A paisagem lá de cima continua linda, como sempre. A cidade, de fato, tem uma beleza estonteante. Era de se esperar fila de gente.


No entanto, o que mais me surpreende é para onde caminham as pessoas. Se é que caminham… gente de todas as partes.


Uma hora de espera para fazer a foto.


Debaixo do Cristo Redentor, imitam o gesto de braços abertos. Bem ali, exatamente no último degrau da escada, nem um passo a mais para a direita ou para a esquerda. Aqui, assim, agora, abre os braços, parada, sorria! Click!


Na fila, quem espera observa quem chegou ao topo da escada.


O mesmo gesto: a senhora, o moço, a criança, o casal, a turma de amigos. O rapaz, guia turístico, tenta produzir algo ainda mais elaborado. Deitado no chão, em busca do melhor ângulo, faz vídeo em câmera lenta e dá o comando da hora exata da pose para o gringo, num inglês improvisado. Vem mais um, imita o último, que será imitado pelo próximo.


E assim, centenas de pessoas, ou muito mais que isso, passam ali, diariamente, debaixo da estátua gigante em seus quase trinta metros de altura, altiva, sobre a Baía de Guanabara.


Algum peregrino faz uma oração, ao chegar. Nota-se certa contemplação debaixo da imagem de concreto revestida de pedra sabão. Outro se refresca na sombra que se estica no solo, ao meio-dia. E outros não sabem o que rezar. Talvez não saibam o que dizer, diante da beleza. Da estátua ou da paisagem talhada naturalmente sobre o mar.


Muitos agradecem as bênçãos de um sonho realizado e tantos outros pedem a benção da proteção àquele que parece abarcar todo o Rio de Janeiro nos braços esticados em vinte e oito metros de largura.


Porém, a grande maioria corre atrás da foto. Idêntica! Ai daquele que furar a fila, ou simplesmente decidir sentar-se no pé da escada para observar a paisagem.


Ali, não. Há que se deixar espaço para as selfies. Há que se imitar a estátua. O que ela representa, nem tanto.


A impaciência com alguém que demora um pouco mais no registro, ou com aquele que não compreende a dinâmica urgente da postagem na rede social, revela certa dissociação com o que pregou aquele representado lá no alto.


Quem sabe um espaço para o silêncio e a contemplação. Para que? Há muito ruído. Até os micos e os quatis, que dão as caras no Corcovado, parecem agitar-se com o barulho dos humanos tão perto da mata atlântica. Há tanto para se ver, por trás da estátua, por trás das montanhas…


Porém há uma pressa de se comunicar com quem não veio, de contar que esteve ali, que conseguiu, que não teve o perigo do Rio noticiado pela televisão, que o motorista do Uber foi gentil, que se está feliz, ainda que não seja uma verdade absoluta. Há uma pressa maior de ser curtido do que curtir.


O instante apreendido escapa pelas lentes de um celular, escorrem pelos dedos que digitam rápido e escorregam nas cabeças enterradas que se erguem muito pouco para ver a imagem grande e todo esplendor de natureza ao seu redor. Robôs obedientes à pressão social, sentem dor ao olharem para o alto. Dói a claridade do céu azul, dói a imensidão da estátua, e dói nossa pequenez diante dela.


Impossível não me lembrar da primeira vez. Foi num encontro nacional de corais de todo o Brasil. Mais de cem vozes nas escadarias. Importava menos a imagem e mais o som. A canção “Valsa de uma cidade” em diferentes tons que juntos formavam uma só melodia. De arrepiar quem pôde assistir. De emocionar que cantou junto. Foi o que disseram, quando vieram nos parabenizar.


De trás de nós: Ele: O Cristo Redentor. O mesmo, reproduzido em incontáveis registros.


Ontem, hoje e amanhã, quem sabe?

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