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Espaço Vivo

Aqui é uma hospedagem coletiva, onde você pode conhecer fluxos, trilhas e colaborações de outros autores e artistas. Entre e passeie por novas formas, textos e histórias. Antes de chegar nesse nome, "Espaço Vivo", passeei por outros. Caminhei por Criadoria, Imaginâncias e Espaço do Poetizar. E deixei que o movimento e a abertura para o que é Vivo. Entre e fique à vontade. Respire, relaxe e aproveite.



Nada como um banho de mar no primeiro dia do ano.


A parte das metas já tinha sido pensada e escrita há uma semana, e pela primeira vez reduziu os itens daquela lista. Esse período é bom para reflexão. Não que nada mude na natureza. Essa virada é apenas mais uma convenção dos homens, mas por que não tirar proveito disso?


Era raro ela viajar nessa época. Geralmente, prefere lugares mais vazios ou ficar em casa.

Mas naquele ano foi diferente. Ela estava diferente.


Naquele primeiro dia do ano, ela estava com a família, em uma praia lotada. No dia primeiro, entrou no mar sozinha. Respirando e consciente da respiração, ela caminhou pela areia para sentir por inteiro aquela experiência. De repente, o balanço de suas emoções.


Por muito tempo acreditou que todo o seu esforço a levaria para algum lugar, calmo, sossegado e previsível. Mas a cada tranquilidade, lá vinham novos desafios exigindo dela novas respostas. Assim como no mar. Para cada onda, ela tinha que responder de uma nova forma.


O mar naquele dia estava agitado, com uma corrente puxando para a direita e foi percebendo que as exigências sobre as pernas eram diferentes também. Em alguns momentos, ela tinha que mergulhar, em outros pular as ondas. E começou a curtir e a experimentar novas possibilidades, virando o corpo para um lado e para outro, boiando de costas para o mar e batendo as pernas. Foi curtindo cada nova experiência, como se fosse uma criança curiosa com um brinquedo novo.


Ali, lavada pela água salgada sentiu que é possível viver aberta para o quê o mar chamado vida, ou a vida chamada mar sempre traz. A partir disso, considerou brincar com as diversas possibilidades que tem para jogar com as ondas chamadas oportunidades. Considerou levar para a vida real um pouco dessa sua experiência no mar. Saiu dali aberta para as ondas secas da vida que sempre chegam.


E assim, começou mais um ano, acreditando ter um olhar novo.

  • 4 de dez. de 2023
  • 2 min de leitura

Para a mãe não letrada, a menina já sabia ler desde muito nova. Ela já lia alegria quando os passarinhos cantavam através da mãe inspirada depois de uma noite de amor. Lia tristeza quando via chuva no rosto da mãe depois de uma discussão em silêncio com o pai. Lia dor antes mesmo antes do anúncio da morte da avó. Lia amor quando se recolheu assim como o oceano antes do tsunami ao ver seu colega de sala. Lia falta de sentido na água parada da lagoa assim como continuar pedalando após ter aprendido a andar de bicicleta. Lia vergonha ao sentir-se uma estrela cadente quando se esqueceu da coreografia do balé em cima do palco. Lia rejeição ao se sentir caroço de fruta quando os primos a deixavam de fora de uma rodada de piadas pesadas. Lia ferida na alma quando sentiu o cheiro amargo de saber que era só. Lia saudade como se ela fosse o lenço abanado na despedida no último dia de aula.

A menina desde sempre lia o mundo do jeito que ele se escrevia diante dela.

A mãe lhe questionava de onde vinha tantas ideias e tantas palavras que geralmente as crianças não sabiam. Mas a menina não tinha resposta e lia dúvida na testa enrugada da mãe. Do pai, vinha o grito lá de dentro: "loucura, Maria." E a menina lia ignorância do pai e a vontade de vencer de dentro dela brotava. Pegava um lápis mastigado mais um papel de pão e ia desenhar o mundo que lia. Desenhava solidão mais gratitude e do seu jeito um mundo onde havia compreensão entre as pessoas. Guardava o papel para si mesma, pois ali ninguém era capaz de ler o que ela já lia. Ninguém sabia o seu alfabeto.

Isso tudo aconteceu antes mesmo de ela ler o mundo letrado de verdade, de explorar o dicionário em busca das palavras que melhor traduzissem o que sentia. Parece que nenhuma delas servia, e de sinônimo em sinônimo ela vivia lendo o mundo do jeito que ela sempre fazia. A menina cresceu, e a mulher na qual se tornou insistiu em manter em seu olhar a leitura própria do mundo, conforme ela o via. Criou estórias, misturou-se em seus enredos e manteve para si mesma aquilo que todos tentavam enxergar para além das suas palavras. Razões, inspirações, respostas, isso tudo ela não exibiu, pois era dali, onde ela nem sabe o nome, que vinha sua motivação.

  • 10 de nov. de 2023
  • 2 min de leitura

Atualizado: 6 de jan. de 2024




Por muitos anos, carreguei a identidade dos meus filhos na minha carteira. Tirei quando eram muito novinhos para evitar andar com certidão de nascimento. Desde então coloquei as identidades deles junto da minha, ao lado das carteirinhas do plano de saúde e do clube. Para viajar, ir ao hospital ou ao clube, eu não precisava buscar os documentos: andávamos juntos. Tive a opção e o privilégio de parar de trabalhar por um tempo e no leva e traz das atividades, eu já estava equipada. Documentos e compromissos de mãe, todos juntos e misturados.


Mas os filhos crescem. Mudam os traços das faces, tiram novas fotos e fazem novas identidades. Com isso, eu fui ficando com os documentos antigos. Era uma ida ao cinema com os amigos ou uma viagem que eles precisavam dos documentos deles, e eu ficava para trás. Mesmo assim, eu mantinha as identidades deles ao lado da minha, pois a minha cópia, bem guardada, era a salvação. Aconteceu um dia, de viajarmos e eles se esquecerem dos documentos na calça que vestiram no dia anterior.


Mas hoje eles nem as usam mais. Saem com as de motorista, que são digitais. E eu mesmo sabendo que esse dia ia chegar, me esqueci que eu teria que guardar aqueles documentos físicos, que trazia comigo há tanto tempo. Em um ano, meu filho foi morar em outro país e eu tirei o documento dele da minha carteira. No ano seguinte, a minha filha também saiu do país e o mesmo foi feito. Entre outras adaptações que tive que enfrentar com a saída deles, esse gesto de separar nossas identidades aconteceu como um ritual de passagem.


Abri minha carteira, e ali onde ficavam as três coladinhas, deixei apenas a minha. Na foto, ainda carrego os traços da mãe deles, e o coração do lado de cá, continua buscando uma nova sintonia. Guardei o documento da minha filha ao lado da do meu filho, na gaveta da mesa do escritório, onde guardo alguns documentos e tranquei. Pus as chaves na caixinha em cima do meu criado, a mesma onde estão algumas fotos.


Sem nenhum filho em casa para eu dar boa noite, eu conto com o meu coração ainda ligado neles e com o meu papel de mãe que jamais vai deixar de existir. Hoje é um novo dia e saio com a minha carteira levando apenas a minha identidade



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