Carta aos brasileiros
- 16 de jun.
- 3 min de leitura

Há mais de 20 anos, já refletindo de forma crítica sobre o que constitui o “ser brasileiro”, escrevi e publiquei um texto, que pode ser conferido no meu site pelo link na bio.
Na época, fiz uma espécie de costura reunindo percepções, escutas e experiências, tentando dar forma a um pensamento ainda em construção. Não havia o alcance das redes sociais como temos hoje, e as provocações não eram levadas com tanta rigidez. Ainda havia mais espaço para o diálogo.
Hoje, ao revisitá-lo, me pergunto sobre o quanto isso mudou.
O quanto estamos, de fato, abertos ao diferente e, principalmente, à autocrítica?
O quanto conseguimos sustentar conversas que nos tirem do lugar, sem recorrer imediatamente à defesa ou ao ataque?
E o quanto estamos disponíveis para rever posições, questionar certezas e aprender com o outro?
Talvez essas perguntas digam tanto sobre o país quanto qualquer resposta pronta.
Acesse o texto em johannahomann.com
Carta aos brasileiros
Eu sou brasileira, não apenas por falar tão mal o português, mas também por achar que nossos diplomatas não precisam falar o idioma dominante.
Eu sou brasileira não apenas por ser criativa, mas por acreditar que tudo pode ser levado em ritmo de samba.
Eu sou brasileira, não apenas por saber que meu país é explorado pelos mais ricos, mas também por querer levar vantagem em tudo, até mesmo em relação aos mais simples e menos favorecidos do que eu.
Eu sou brasileira não pelo meu jeito alegre de ser, mas por pensar que tenho direito de impor esse jeito às pessoas quando visito outros países.
Eu sou brasileira não apenas por passear com meu cão de guarda, sem guia e sem focinheira, numa praça pública, mas também por achar que devo interpretar uma lei da forma que me convém, pois sei que nada me acontecerá.
Eu sou brasileira não apenas por desconfiar da polícia, mas por recorrer ao morro quando preciso de proteção.
Eu sou brasileira não apenas por pensar que todo político é corrupto, mas também por não lembrar o passado dos candidatos no dia de votar.
Eu sou brasileira não apenas por adorar uma cerveja gelada, mas também por assumir a direção de um veículo logo depois de ter tomado algumas delas.
Eu sou brasileira não apenas por temer a violência, mas por aceitar mudar toda minha vida em função dela.
Eu sou brasileira não apenas por contribuir com o governo quando ele me solicita diminuir gastos com a energia, mas também por não incomodá-lo exigindo ações efetivas quando surgem os apagões.
Eu sou brasileira não apenas por adorar futebol, mas também por achar que a vida entra num clima de carnaval durante a Copa.
Eu sou brasileira não apenas por andar sozinha, no meu carro, na maioria das vezes, mas por concordar que não é dever do Estado investir em transporte público de qualidade.
Eu sou brasileira também por achar que devo assumir sozinha as despesas com saúde e educação dos meus filhos e fingir que acredito que os impostos que eu pago são para o governo investir em algo "muito mais importante"...
Eu sou brasileira não apenas por gostar de carros, mas também por desrespeitar os pedestres e as leis básicas de trânsito.
Eu sou brasileira por achar que o país é protegido por Deus e está livre de grandes catástrofes naturais e também por não me preocupar com o meio ambiente, jogando lixo no chão e desperdiçando água nas rotinas diárias.
Eu sou brasileira por ter coragem de assumir dívidas no cartão de crédito e no cheque especial, sem lembrar que somos o país com uma das maiores taxas de juros do mercado e que vou ter dificuldades mais à frente.
Por tudo isso eu tenho o maior orgulho de ser brasileira e acredito que o melhor do meu país sou eu!
A primeira versão deste texto foi publicada no jornal O tempo, em 28 de março de 2005.



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