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Espaço Vivo

Aqui é uma hospedagem coletiva, onde você pode conhecer fluxos, trilhas e colaborações de outros autores e artistas. Entre e passeie por novas formas, textos e histórias. Antes de chegar nesse nome, "Espaço Vivo", passeei por outros. Caminhei por Criadoria, Imaginâncias e Espaço do Poetizar. E deixei que o movimento e a abertura para o que é Vivo. Entre e fique à vontade. Respire, relaxe e aproveite.

há 13 horas
2 min de leitura

Eu resisto à IA


Eu uso inteligência artificial.


Pesquiso, organizo ideias, encontro receitas, descubro curiosidades, faço perguntas que antes faria aos livros e às enciclopédias.


Mas eu também resisto à IA.


Resisto quando vivo através dos meus sentidos.


Quando percebo que estou com fome e penso no que seria bom para me alimentar naquele momento. Quando uso o nariz para sentir o cheiro da manga e descobrir se ela ou o mamão ao lado está mais no ponto de ser saboreado.


Resisto quando escuto o que vem de dentro e pede para ser escrito.


Quando dou ouvidos ao meu sentir e percebo que, naquele momento, a melhor escolha é o silêncio. Ou uma pausa. Ou uma respiração mais consciente. Ou simplesmente contemplar as sombras inusitadas que o sol desenha dentro de casa nesta época do ano. O jogo de luz e sombra muda ao longo das estações, e eu gosto de perceber essas pequenas transformações.


Resisto quando resolvo receber amigos em casa.


Penso em quem vou convidar, quais flores escolher, quais petiscos combinam melhor com aquela conversa. Depois proponho um jogo de cartas, e o encontro se estende um pouco mais do que o planejado.


Resisto quando confio na minha intuição para tomar algumas decisões. Ao final do processo, descubro que me sinto mais segura por ter me escutado — ou mais sábia por ter aprendido algo sobre mim.


Resisto quando saio para caminhar sem fones de ouvido.


Escuto o canto dos pássaros, o som dos meus passos, o estalo de uma folha seca, a força da minha própria passada.


Resisto quando as lágrimas escorrem diante de um romance ou de uma autobiografia. Quando uma frase me atravessa e, em vez de pedir para outra voz escrever por mim, deixo nascer a semente de um novo poema.


Eu uso a IA.


Faço pesquisas. Consulto receitas. Descubro, por exemplo, qual costuma ser a principal fonte de proteína na alimentação de muitas pessoas na Índia.


Ela me ajuda.


Mas não entrego a ela aquilo que considero mais valioso.


Não tercerizo o sentir.


Não transfiro a exploração do mundo através dos meus sentidos.


Não delego os encontros que me fazem reconhecer o outro e ser reconhecida por ele.


Também não procuro nela uma aprovação garantida.


Prefiro a conversa que me contradiz, a opinião que amplia meu olhar, a pessoa que escuta o que tenho para dizer e me convida a escutar uma história diferente da minha.


Porque é nessa troca que continuo encontrando algo que nenhuma tecnologia pode viver no meu lugar.


A experiência de permanecer humana.



Sei que muitas pessoas se interessam por esse tema e muitas preferem não se envolver. Cada uma tem seus motivos e seu momento. Ainda assim, gostaria de compartilhar uma reflexão sobre um movimento que vem ganhando cada vez mais espaço e que merece ser pensado com cuidado.


Há muito tempo, as mulheres vêm conquistando lugares que antes lhes eram proibidos até de sonhar. Para não ficar apenas no plano das ideias, lembro sempre da história da minha mãe. Ela foi incentivada a não estudar, embora esse fosse um grande desejo. Mais tarde, precisou abandonar o sonho de ser engenheira e se contentar com a oportunidade de cursar Pedagogia.


Nada contra a Pedagogia. Foi justamente essa profissão que lhe permitiu sustentar e formar suas três filhas, que, por sua vez, puderam escolher livremente o que estudar.


As mulheres vêm, sim, conquistando espaços que durante muito tempo foram considerados "lugares de homem". Muitas precisaram lutar intensamente para ocupar posições antes inacessíveis e, ainda hoje, convivem com desigualdades importantes, como a diferença de remuneração. Nada disso pode ser ignorado.


Mas gostaria de ampliar um pouco essa conversa e abrir espaço para um diálogo mais humano.


Quando sou convidada a falar sobre liderança feminina, gosto de considerar o contexto cultural em que estamos inseridos. Isso implica reconhecer as desigualdades ainda presentes, mas também olhar para a história singular de cada mulher.


Há mulheres que construíram uma sólida formação técnica e, ao mesmo tempo, desenvolveram uma sensibilidade especial para cuidar das pessoas e das relações. Outras carregam experiências marcadas pelos privilégios historicamente concedidos aos homens, muitas vezes vividos dentro da própria família, e transformam essas vivências em motivação para contribuir com uma sociedade mais justa.


Há também aquelas que caminham ao lado de homens que as apoiam, reconhecem seu trabalho e compreendem o valor de equipes diversas e colaborativas.


Algumas ainda precisam lutar para conquistar espaço. Outras precisam permanecer atentas para preservá-lo.


Por isso, acredito que o ponto central não seja apenas discutir diferenças, mas construir diálogo.


Ir além dos estereótipos.


Uma mulher não pode ser reduzida ao equilíbrio ideal entre força e delicadeza. Assim como um homem não pode ser resumido à figura do opressor, embora a cultura ainda lhe ofereça privilégios importantes. As pessoas são sempre maiores do que qualquer categoria.


É justamente nessa diversidade que reside a riqueza das organizações.


Quando existe espaço para que homens e mulheres sejam respeitados, ouvidos e possam colaborar em segurança, todos ganham. O nome "liderança feminina" pode funcionar como um convite para essa conversa, mas o horizonte não deveria substituir um polo pelo outro.


O desafio é construirmos lideranças comprometidas com as pessoas, com o diálogo e com relações de trabalho mais humanas.


É comum escutarmos as pessoas se queixarem do seu trabalho, da empresa, do chefe e do salário. É raro depararmo-nos com alguém pleno e resolvido na área profissional.


Quem mantém uma relação empregatícia questiona com frequência ações da empresa no que se refere às exigências do mercado, decisões tomadas para aumentar a produtividade, políticas de remuneração e de distribuição de lucros, entre outras. Geralmente, os empregados vivem com a certeza de que os chefes são incansáveis exploradores da força humana.


Quem tem sua própria empresa queixa do mercado, dos clientes chatos que precisa suportar (o pior é quando nós somos esses clientes!) e dos funcionários sempre insatisfeitos. Se a empresa é pequena em resultados, o empresário reclama do baixo lucro, e da instabilidade que não o permite fazer planos. Se a empresa é grande, provavelmente a responsabilidade e os problemas aumentam, causando também insatisfação.


A situação parece ser bastante desanimadora, podendo criar dúvidas sobre como agir diante dela. Proponho, portanto, a reflexão sobre Empresa Ideal x Ideal de Empresa. A empresa ideal é algo que faz parte da nossa existência, dos nossos sonhos e, principalmente, da nossa construção. Não surgirá pronta, acabada, realizando os nossos desejos, quando e como a gente gostaria, nem será uma fonte de inspiração, de alegria e de realizações. Nela não encontraremos somente os nossos amigos mais queridos, ou, sem precisar exigir muito, colegas com quem tenhamos afinidade na forma de pensar e de agir. A empresa não consegue acompanhar nosso planejamento orçamentário, pois basta mudarmos de faixa salarial, para ajustarmos também nossos gastos, passando a ficar em um novo patamar de desejos. Infelizmente, é preciso entender que a empresa, mesmo que a ideal, não existe para os funcionários, mas, sim, com eles e tem um propósito que precisa da força das pessoas que trabalham nela, como em uma parceria. E, nesse jogo, cada um precisa fazer sua parte. Por isso, não adianta procurar, a empresa ideal para se trabalhar não existe!


Para preencher o vazio desta dura conclusão, deparamo-nos com o Ideal de Empresa, e aqui, sim, podemos fazer muito. Todos nós temos habilidades, talentos, aptidões e, aprofundando um pouco mais, temos desejos. Muitos de nós ainda não sabemos, mas temos tudo isso, mesmo que as virtudes andem juntas com as limitações. Ao tornar claro para nós quais são as nossas virtudes, passamos a buscar locais e profissões que vão de acordo com elas e que nos permitam exacerbar nossas habilidades.


O Ideal de Empresa é aquilo que vem do nosso coração. É um sonho que temos sobre a realidade na qual vivemos, no entanto, misturada com todas as nossas habilidades. É o que traduz para o mundo externo o que temos dentro de nós. É quando investimos energia, sem racionamento, sobre a concretização de um sonho. E sempre que alcançamos a sabedoria que mora no nosso íntimo, temos força para que o mundo externo seja mais alegre e confortável. Os problemas não deixarão de existir, assim como os chefes, os clientes, a inveja e o ciúmes. Porém, a forma de lidar com tais questões será diferente.


Parece um pouco de fantasia, porém quando destacamos o que nos move temos força para agir em torno do que nos cerca. Quando a pessoa reconhece o seu desejo, através dele, o seu talento é refletido e ela se faz brilhar.


Assim, entramos em uma outra esfera da roda da vida, quando conseguimos fazer algo que nos dá prazer, e somos recompensados com isso (salário, participação nos lucros, reconhecimento). Nesta esfera, a autoconfiança e autoestima passam a fazer parte da nossa realidade.


E, como estamos falando de ser humano e ninguém tem uma vida igual a de ninguém, o texto escrito não deve ser visto como uma fórmula a ser seguida, mas deve ser encarado como uma reflexão. Vale a pena questionarmos se do que não gostamos nas nossas vidas não tem relação com aquilo que não aceitamos em nós mesmos. Será que a nossa realidade está tão ruim em função das contingências ou temos uma certa responsabilidade para que esteja como está? Considerar que a empresa ideal não existe, mas questionar qual é o nosso ideal de empresa e como podemos contribuir para que se torne um pouco mais próximo do que vivemos, talvez seja um ponto de partida.


— A primeira versão deste texto foi publicada no jornal Estado de Minas, em 11 de novembro de 2001.


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