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Espaço Vivo

Aqui é uma hospedagem coletiva, onde você pode conhecer fluxos, trilhas e colaborações de outros autores e artistas. Entre e passeie por novas formas, textos e histórias. Antes de chegar nesse nome, "Espaço Vivo", passeei por outros. Caminhei por Criadoria, Imaginâncias e Espaço do Poetizar. E deixei que o movimento e a abertura para o que é Vivo. Entre e fique à vontade. Respire, relaxe e aproveite.


Sei que muitas pessoas se interessam por esse tema e muitas preferem não se envolver. Cada uma tem seus motivos e seu momento. Ainda assim, gostaria de compartilhar uma reflexão sobre um movimento que vem ganhando cada vez mais espaço e que merece ser pensado com cuidado.


Há muito tempo, as mulheres vêm conquistando lugares que antes lhes eram proibidos até de sonhar. Para não ficar apenas no plano das ideias, lembro sempre da história da minha mãe. Ela foi incentivada a não estudar, embora esse fosse um grande desejo. Mais tarde, precisou abandonar o sonho de ser engenheira e se contentar com a oportunidade de cursar Pedagogia.


Nada contra a Pedagogia. Foi justamente essa profissão que lhe permitiu sustentar e formar suas três filhas, que, por sua vez, puderam escolher livremente o que estudar.


As mulheres vêm, sim, conquistando espaços que durante muito tempo foram considerados "lugares de homem". Muitas precisaram lutar intensamente para ocupar posições antes inacessíveis e, ainda hoje, convivem com desigualdades importantes, como a diferença de remuneração. Nada disso pode ser ignorado.


Mas gostaria de ampliar um pouco essa conversa e abrir espaço para um diálogo mais humano.


Quando sou convidada a falar sobre liderança feminina, gosto de considerar o contexto cultural em que estamos inseridos. Isso implica reconhecer as desigualdades ainda presentes, mas também olhar para a história singular de cada mulher.


Há mulheres que construíram uma sólida formação técnica e, ao mesmo tempo, desenvolveram uma sensibilidade especial para cuidar das pessoas e das relações. Outras carregam experiências marcadas pelos privilégios historicamente concedidos aos homens, muitas vezes vividos dentro da própria família, e transformam essas vivências em motivação para contribuir com uma sociedade mais justa.


Há também aquelas que caminham ao lado de homens que as apoiam, reconhecem seu trabalho e compreendem o valor de equipes diversas e colaborativas.


Algumas ainda precisam lutar para conquistar espaço. Outras precisam permanecer atentas para preservá-lo.


Por isso, acredito que o ponto central não seja apenas discutir diferenças, mas construir diálogo.


Ir além dos estereótipos.


Uma mulher não pode ser reduzida ao equilíbrio ideal entre força e delicadeza. Assim como um homem não pode ser resumido à figura do opressor, embora a cultura ainda lhe ofereça privilégios importantes. As pessoas são sempre maiores do que qualquer categoria.


É justamente nessa diversidade que reside a riqueza das organizações.


Quando existe espaço para que homens e mulheres sejam respeitados, ouvidos e possam colaborar em segurança, todos ganham. O nome "liderança feminina" pode funcionar como um convite para essa conversa, mas o horizonte não deveria substituir um polo pelo outro.


O desafio é construirmos lideranças comprometidas com as pessoas, com o diálogo e com relações de trabalho mais humanas.


É comum escutarmos as pessoas se queixarem do seu trabalho, da empresa, do chefe e do salário. É raro depararmo-nos com alguém pleno e resolvido na área profissional.


Quem mantém uma relação empregatícia questiona com frequência ações da empresa no que se refere às exigências do mercado, decisões tomadas para aumentar a produtividade, políticas de remuneração e de distribuição de lucros, entre outras. Geralmente, os empregados vivem com a certeza de que os chefes são incansáveis exploradores da força humana.


Quem tem sua própria empresa queixa do mercado, dos clientes chatos que precisa suportar (o pior é quando nós somos esses clientes!) e dos funcionários sempre insatisfeitos. Se a empresa é pequena em resultados, o empresário reclama do baixo lucro, e da instabilidade que não o permite fazer planos. Se a empresa é grande, provavelmente a responsabilidade e os problemas aumentam, causando também insatisfação.


A situação parece ser bastante desanimadora, podendo criar dúvidas sobre como agir diante dela. Proponho, portanto, a reflexão sobre Empresa Ideal x Ideal de Empresa. A empresa ideal é algo que faz parte da nossa existência, dos nossos sonhos e, principalmente, da nossa construção. Não surgirá pronta, acabada, realizando os nossos desejos, quando e como a gente gostaria, nem será uma fonte de inspiração, de alegria e de realizações. Nela não encontraremos somente os nossos amigos mais queridos, ou, sem precisar exigir muito, colegas com quem tenhamos afinidade na forma de pensar e de agir. A empresa não consegue acompanhar nosso planejamento orçamentário, pois basta mudarmos de faixa salarial, para ajustarmos também nossos gastos, passando a ficar em um novo patamar de desejos. Infelizmente, é preciso entender que a empresa, mesmo que a ideal, não existe para os funcionários, mas, sim, com eles e tem um propósito que precisa da força das pessoas que trabalham nela, como em uma parceria. E, nesse jogo, cada um precisa fazer sua parte. Por isso, não adianta procurar, a empresa ideal para se trabalhar não existe!


Para preencher o vazio desta dura conclusão, deparamo-nos com o Ideal de Empresa, e aqui, sim, podemos fazer muito. Todos nós temos habilidades, talentos, aptidões e, aprofundando um pouco mais, temos desejos. Muitos de nós ainda não sabemos, mas temos tudo isso, mesmo que as virtudes andem juntas com as limitações. Ao tornar claro para nós quais são as nossas virtudes, passamos a buscar locais e profissões que vão de acordo com elas e que nos permitam exacerbar nossas habilidades.


O Ideal de Empresa é aquilo que vem do nosso coração. É um sonho que temos sobre a realidade na qual vivemos, no entanto, misturada com todas as nossas habilidades. É o que traduz para o mundo externo o que temos dentro de nós. É quando investimos energia, sem racionamento, sobre a concretização de um sonho. E sempre que alcançamos a sabedoria que mora no nosso íntimo, temos força para que o mundo externo seja mais alegre e confortável. Os problemas não deixarão de existir, assim como os chefes, os clientes, a inveja e o ciúmes. Porém, a forma de lidar com tais questões será diferente.


Parece um pouco de fantasia, porém quando destacamos o que nos move temos força para agir em torno do que nos cerca. Quando a pessoa reconhece o seu desejo, através dele, o seu talento é refletido e ela se faz brilhar.


Assim, entramos em uma outra esfera da roda da vida, quando conseguimos fazer algo que nos dá prazer, e somos recompensados com isso (salário, participação nos lucros, reconhecimento). Nesta esfera, a autoconfiança e autoestima passam a fazer parte da nossa realidade.


E, como estamos falando de ser humano e ninguém tem uma vida igual a de ninguém, o texto escrito não deve ser visto como uma fórmula a ser seguida, mas deve ser encarado como uma reflexão. Vale a pena questionarmos se do que não gostamos nas nossas vidas não tem relação com aquilo que não aceitamos em nós mesmos. Será que a nossa realidade está tão ruim em função das contingências ou temos uma certa responsabilidade para que esteja como está? Considerar que a empresa ideal não existe, mas questionar qual é o nosso ideal de empresa e como podemos contribuir para que se torne um pouco mais próximo do que vivemos, talvez seja um ponto de partida.


— A primeira versão deste texto foi publicada no jornal Estado de Minas, em 11 de novembro de 2001.



No mundo, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma – já dizia Lavoisier. Hoje mais do que nunca, vivo essa ideia de transformar, de reciclar tudo que vejo pela frente. Porém, reciclar não é fácil: implica limpar, separar e dependendo da coleta, é preciso providenciar a distribuição do material. Isso tem sido parte da minha vida, e faço com gosto. Mas outro dia, separando embalagens, e verificando se tinha algo colocado na caixa errada, me deu vontade de eu mesma passar por esse processo de reciclagem. O que eu posso aproveitar, o que eu tenho para descartar?


Embora já tenha passado por momentos querendo me jogar no lixo, neste dia eu quis mesmo era reciclar alguns sentimentos. Não. Não dá pra jogar tudo fora e arranjar novos; tenho muito insumo para ser aproveitado. Levantei a tampa da memória e surgiu diante de mim, a minha sala da 2ª série do primário com a tia Dorinha. Num dia, ela perguntou qual era o primeiro passo para construir uma casa. Eu levantei a mão empolgadamente e respondi que era subir as paredes. Na hora, a professora me corrigiu e a turma toda riu – a tia disse que era comprar o terreno. Naquele dia, o buraco da vergonha se abriu, e eu entrei lá dentro. Já deixei de falar em público muitas ideias que eu tive, com medo de rirem de mim ou de me acharem burra. Nessa reciclagem fico pensando que essa vergonha deve ser colocada em uma caixa com a dimensão correta: vergonha todo mundo tem, mas ela não deve ser maior do que minha capacidade de me movimentar. Optei por reciclar essa imagem de que eu preciso saber de tudo e de que eu não posso errar. 


Lembrei também do lixo produzido por certas artes. Não as que eu aprontei com os outros, mas das minhas produções artísticas. Um dia, ainda criança, eu estava bem feliz com um desenho feito pra aula de artes, porém fiquei decepcionada quando percebi que não levava jeito para aquilo. Perto dos desenhos dos colegas, o meu não encantava: era um colorido comum, sem muita criatividade nem efeitos. Em outro dia, já adulta, quando matriculada em um curso de desenho para moda, ouvi da professora que eu era a pior aluna que havia passado por lá. Embora a professora tenha carregado nas palavras e sido uma incentivadora pra eu desistir, o fato é que ela tinha razão. Os desenhos eram mais alienígenas vestidos. E daí? Às vezes o que sai é lixo mesmo, e nem por isso eu devo parar. A arte pode ser um lixo mexido que está sendo reciclado, podendo ou não ficar do agrado dos outros. O importante para quem faz é a própria mexida no material. 


Essa mexida no material não é desperdício, é reciclagem. Por exemplo, eu não queria me desfazer das vezes que fui brava com meus filhos por motivos pequenos e irrelevantes, pois acredito que eles tenham aprendido como estou longe de ser uma mulher perfeita. Porém gostaria de reviver com eles esses momentos, com a nossa maturidade de hoje, para rirmos juntos de quanto peso dei para algo tão leve. Aliás, considero a minha leveza de hoje como matéria interna reciclada. 


E penso como seria bom se pudéssemos reciclar o tempo e fazer uma melhor distribuição dele. Gostaria de redistribuir as tarefas do dia a dia, ao longo da vida, para não ficar tão parada e sozinha quando eu ficar mais velha, e quando mais nova, não me faltar tempo pra ficar à toa com meus filhos. Assim como acontece com a minha mãe – gostaria de ter tido mais tempo com ela antes e também que ela tivesse mais ocupação hoje em dia. 

Enfim, sou feita de tudo que vivo e vasculhando o depósito do que vivi sem medo do que vou encontrar, tudo acaba sendo material para eu continuar escrevendo. É! Parece que Lavoisier tinha razão.


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