
Eu resisto à IA
Eu uso inteligência artificial.
Pesquiso, organizo ideias, encontro receitas, descubro curiosidades, faço perguntas que antes faria aos livros e às enciclopédias.
Mas eu também resisto à IA.
Resisto quando vivo através dos meus sentidos.
Quando percebo que estou com fome e penso no que seria bom para me alimentar naquele momento. Quando uso o nariz para sentir o cheiro da manga e descobrir se ela ou o mamão ao lado está mais no ponto de ser saboreado.
Resisto quando escuto o que vem de dentro e pede para ser escrito.
Quando dou ouvidos ao meu sentir e percebo que, naquele momento, a melhor escolha é o silêncio. Ou uma pausa. Ou uma respiração mais consciente. Ou simplesmente contemplar as sombras inusitadas que o sol desenha dentro de casa nesta época do ano. O jogo de luz e sombra muda ao longo das estações, e eu gosto de perceber essas pequenas transformações.
Resisto quando resolvo receber amigos em casa.
Penso em quem vou convidar, quais flores escolher, quais petiscos combinam melhor com aquela conversa. Depois proponho um jogo de cartas, e o encontro se estende um pouco mais do que o planejado.
Resisto quando confio na minha intuição para tomar algumas decisões. Ao final do processo, descubro que me sinto mais segura por ter me escutado — ou mais sábia por ter aprendido algo sobre mim.
Resisto quando saio para caminhar sem fones de ouvido.
Escuto o canto dos pássaros, o som dos meus passos, o estalo de uma folha seca, a força da minha própria passada.
Resisto quando as lágrimas escorrem diante de um romance ou de uma autobiografia. Quando uma frase me atravessa e, em vez de pedir para outra voz escrever por mim, deixo nascer a semente de um novo poema.
Eu uso a IA.
Faço pesquisas. Consulto receitas. Descubro, por exemplo, qual costuma ser a principal fonte de proteína na alimentação de muitas pessoas na Índia.
Ela me ajuda.
Mas não entrego a ela aquilo que considero mais valioso.
Não tercerizo o sentir.
Não transfiro a exploração do mundo através dos meus sentidos.
Não delego os encontros que me fazem reconhecer o outro e ser reconhecida por ele.
Também não procuro nela uma aprovação garantida.
Prefiro a conversa que me contradiz, a opinião que amplia meu olhar, a pessoa que escuta o que tenho para dizer e me convida a escutar uma história diferente da minha.
Porque é nessa troca que continuo encontrando algo que nenhuma tecnologia pode viver no meu lugar.
A experiência de permanecer humana.

