Reciclagem
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No mundo, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma – já dizia Lavoisier. Hoje mais do que nunca, vivo essa ideia de transformar, de reciclar tudo que vejo pela frente. Porém, reciclar não é fácil: implica limpar, separar e dependendo da coleta, é preciso providenciar a distribuição do material. Isso tem sido parte da minha vida, e faço com gosto. Mas outro dia, separando embalagens, e verificando se tinha algo colocado na caixa errada, me deu vontade de eu mesma passar por esse processo de reciclagem. O que eu posso aproveitar, o que eu tenho para descartar?
Embora já tenha passado por momentos querendo me jogar no lixo, neste dia eu quis mesmo era reciclar alguns sentimentos. Não. Não dá pra jogar tudo fora e arranjar novos; tenho muito insumo para ser aproveitado. Levantei a tampa da memória e surgiu diante de mim, a minha sala da 2ª série do primário com a tia Dorinha. Num dia, ela perguntou qual era o primeiro passo para construir uma casa. Eu levantei a mão empolgadamente e respondi que era subir as paredes. Na hora, a professora me corrigiu e a turma toda riu – a tia disse que era comprar o terreno. Naquele dia, o buraco da vergonha se abriu, e eu entrei lá dentro. Já deixei de falar em público muitas ideias que eu tive, com medo de rirem de mim ou de me acharem burra. Nessa reciclagem fico pensando que essa vergonha deve ser colocada em uma caixa com a dimensão correta: vergonha todo mundo tem, mas ela não deve ser maior do que minha capacidade de me movimentar. Optei por reciclar essa imagem de que eu preciso saber de tudo e de que eu não posso errar.
Lembrei também do lixo produzido por certas artes. Não as que eu aprontei com os outros, mas das minhas produções artísticas. Um dia, ainda criança, eu estava bem feliz com um desenho feito pra aula de artes, porém fiquei decepcionada quando percebi que não levava jeito para aquilo. Perto dos desenhos dos colegas, o meu não encantava: era um colorido comum, sem muita criatividade nem efeitos. Em outro dia, já adulta, quando matriculada em um curso de desenho para moda, ouvi da professora que eu era a pior aluna que havia passado por lá. Embora a professora tenha carregado nas palavras e sido uma incentivadora pra eu desistir, o fato é que ela tinha razão. Os desenhos eram mais alienígenas vestidos. E daí? Às vezes o que sai é lixo mesmo, e nem por isso eu devo parar. A arte pode ser um lixo mexido que está sendo reciclado, podendo ou não ficar do agrado dos outros. O importante para quem faz é a própria mexida no material.
Essa mexida no material não é desperdício, é reciclagem. Por exemplo, eu não queria me desfazer das vezes que fui brava com meus filhos por motivos pequenos e irrelevantes, pois acredito que eles tenham aprendido como estou longe de ser uma mulher perfeita. Porém gostaria de reviver com eles esses momentos, com a nossa maturidade de hoje, para rirmos juntos de quanto peso dei para algo tão leve. Aliás, considero a minha leveza de hoje como matéria interna reciclada.
E penso como seria bom se pudéssemos reciclar o tempo e fazer uma melhor distribuição dele. Gostaria de redistribuir as tarefas do dia a dia, ao longo da vida, para não ficar tão parada e sozinha quando eu ficar mais velha, e quando mais nova, não me faltar tempo pra ficar à toa com meus filhos. Assim como acontece com a minha mãe – gostaria de ter tido mais tempo com ela antes e também que ela tivesse mais ocupação hoje em dia.
Enfim, sou feita de tudo que vivo e vasculhando o depósito do que vivi sem medo do que vou encontrar, tudo acaba sendo material para eu continuar escrevendo. É! Parece que Lavoisier tinha razão.



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